Agora que já se passou um tempo desde a eleição do Lula, podemos ter uma conversa franca nesse sub sobre o futuro da medicina.
Eu sei que existem MUITAS pessoas preocupadas com o cenário de piora no mercado de trabalho da medicina, principalmente para os generalistas. E é uma preocupação SUPER JUSTA. Todo mundo quer ganhar bem, todo mundo quer ter conforto e todo mundo quer ter direitos, não seria diferente para a classe médica.
Mas uma coisa que eu estou observando é que grande parte da classe estava colocando muita expectativa em um novo governo, sendo que, muito provavelmente, os problemas estruturais continuariam existindo independentemente de quem ganhasse.
O lobby do ensino particular continuaria atuante, o volume de médicos no mercado continuaria aumentando e a saturação continuaria sendo uma preocupação.
E tem uma explicação muito simples para isso: não existe garantia nenhuma de que Flávio Bolsonaro enfrentaria os interesses econômicos envolvidos na abertura de faculdades de medicina. Assim como não existe garantia de que o governo Lula vá fazer isso.
São interesses que vão MUITO além de um presidente ou de um partido político.
Mas então, qual é a solução?
A solução está em nós, na nossa mobilização e no nosso reconhecimento como classe trabalhadora.
E eu não estou com esse discurso querendo dizer que devemos fazer uma revolução trabalhista na medicina e que todo mundo deveria pegar uma foice e martelo e sair lutando pelos nossos direitos.
O que eu estou querendo dizer é que devemos parar de ser tão individualistas, principalmente aqueles que já têm a "vida ganha" (quem é especialista e já está consolidado), e pensar mais no nosso coletivo.
Porque é muito fácil ignorar a desvalorização quando você já tem sua clínica, sua agenda cheia e sua estabilidade financeira. Mas o médico que está começando hoje também faz parte da nossa classe. E o que acontece com ele HOJE pode acontecer com você AMANHÃ.
E temos TANTA COISA que podemos fazer, algumas delas:
- Participar das eleições do CFM e dos CRMs, buscando representantes que realmente estejam comprometidos com a valorização da medicina;
- Fortalecer nossos sindicatos e associações/sociedades médicas, porque são essas organizações que podem atuar diretamente na defesa das nossas condições de trabalho e remuneração;
- Pressionar o Congresso, o MEC e os governos por critérios rigorosos na abertura de novos cursos de medicina e por uma fiscalização efetiva da qualidade da formação médica;
- Parar de tratar outros médicos como nossos inimigos. O especialista não é inimigo do generalista. O médico recém-formado não é inimigo do médico experiente. E o médico que trabalha no SUS não é inimigo daquele que trabalha na iniciativa privada. Temos realidades diferentes, mas MUITOS interesses em comum;
- Participar mais das discussões sobre o futuro da nossa profissão. Seja dentro das instituições, nas associações, nas universidades ou até aqui no Reddit. Precisamos transformar parte dessa indignação em propostas e organização, e VOTAR em deputados e senadores que nos defendam.
E é aqui que eu quero chegar: precisamos parar de esperar que algum político apareça para salvar a medicina.
Não importa se você votou no Lula, no Flávio Bolsonaro, se anulou ou se nem foi votar. A partir de agora, estamos todos diante dos mesmos desafios profissionais.
E enquanto a gente continuar gastando mais energia brigando entre nós do que cobrando mudanças concretas, pouca coisa vai mudar.
Eu sei que parece difícil. Sei que muita gente está desanimada, principalmente quem passou anos estudando, abriu mão de tanta coisa e agora olha para o futuro com medo de não conseguir construir a vida que imaginou.
Mas eu me recuso a acreditar que somos uma classe incapaz de nos organizar.
Somos milhares de profissionais que enfrentam jornadas exaustivas, tomam decisões difíceis, carregam responsabilidades enormes e dedicam suas vidas a cuidar de outras pessoas.
Por que não conseguimos transformar uma parte dessa dedicação em uma luta coletiva pela nossa própria profissão?
Não precisamos concordar sobre política, religião ou economia para reconhecer que todos merecemos condições dignas de trabalho, remuneração justa e uma formação médica de qualidade.
A medicina não vai ser valorizada simplesmente porque elegemos o presidente A ou B. A valorização depende também de uma classe que participa, cobra, se organiza e não abandona seus próprios colegas.
Afinal, se a gente não lutar pela valorização da nossa profissão, quem vai lutar?