Aylla Emanuele da Silva, 22 anos, fazedora do L desde sempre.
Estudante de Medicina da UNISUCATEADA, federal aberta durante o governo da Dilmãe. 90% do ingresso é via cotas raciais/sociais.
Aylla não se importa que, graças ao PT e ao Mais Médicos, hoje tem faculdade de Medicina em toda esquina.
Aylla não se importa com a facilidade de revalidação do diploma, pois, para ela, “todo médico é bem-vindo, já que faltam médicos em todo o Brasil”.
Aylla não se importa que, até hoje, existem 9.000 médicos formados em UNIGLANDES piores do que a dela, no Paraguai/Bolívia, e ainda SEM CRM, atuando via programa Mais Médicos, pois, afinal, as vagas tinham sido oferecidas para médicos formados no Brasil antes.
Aylla ainda está no início do curso, mas não se importa em saber que o seu curso nem hospital direito tem. O importante para Aylla são as cadeiras de Medicina & Sociologia / Ambulatório Trans e Ambulatório de Maconha e seu uso racional/medicinal.
Aylla não se importa se o plantão na favela do RJ está pagando R$ 500 por 36h, sem direito a repouso e com promessa de pagamento feita por mensagem de WhatsApp do escalista para daqui a 120 dias, pois, afinal, “isso é mais do que qualquer profissão paga”.
Aylla acredita que médico sempre ganhará bem e estará na elite financeira do país.
Aylla acha que R$ 9 mil mensais por 50h de UBS no bairro Cu de Baixo de Quitandinha, Sergipe, de salário pago via PJ, na modalidade quinteirizada, está excelente, pois esse salário é um privilégio para a população brasileira.
Aylla também não vê problema na expansão desenfreada de vagas de Medicina. Para ela, quanto mais médicos, melhor, independentemente da existência de hospitais escola, professores suficientes, campos de estágio ou estrutura adequada para formar todos eles.
Aylla acha elitismo falar em controle de qualidade da formação médica. Afinal, questionar se uma faculdade possui estrutura suficiente para ensinar Medicina é, para ela, apenas mais uma tentativa da “elite médica” de proteger a própria reserva de mercado.
Aylla não pensa muito no que acontecerá quando milhares de novos médicos disputarem os mesmos plantões. Se o valor do plantão cair, basta trabalhar mais horas.
Se os vínculos CLT forem substituídos por PJ, cooperativa, terceirização ou qualquer outra modalidade criativa de contratação, Aylla também não vê grande problema. Direitos trabalhistas são detalhes diante do privilégio de poder exercer Medicina.
Aylla ainda não percebeu que aumentar o número de diplomas não cria automaticamente hospitais, leitos, equipes multiprofissionais, equipamentos, medicamentos ou condições adequadas de trabalho.
Também não percebeu que colocar mais médicos disputando vagas precárias pode ser muito mais barato para o Estado do que oferecer carreira médica estruturada, remuneração competitiva e condições para fixar profissionais no interior.
Para Aylla, porém, tudo isso é progresso.
Faculdade sem estrutura? Democratização.
Mercado saturado? Inclusão.
Salário caindo? Justiça social.
Plantão precarizado? Combate aos privilégios.
PJ sem férias, 13º ou FGTS? Empreendedorismo involuntário.
Hospital sem material? Culpa da “elite médica”.
Município que troca concurso por terceirização? Modernização da gestão.
Dezenas de médicos disputando um plantão que ninguém aceitaria anos atrás? Finalmente acabaram com a reserva de mercado.
O projeto perfeito não precisa tornar a Medicina melhor. Basta tornar o médico mais barato.
Não é necessário construir hospitais na mesma velocidade em que se abrem cursos. Não é necessário criar carreira de Estado. Não é necessário garantir condições adequadas de trabalho. Não é necessário resolver por que determinadas regiões não conseguem fixar profissionais.
É muito mais simples multiplicar diplomas e colocar uma multidão para disputar os mesmos postos.
Quando sobra profissional, desaparece o poder de negociação.
Quando desaparece o poder de negociação, qualquer escala vira oportunidade.
Qualquer salário vira privilégio.
Qualquer contrato vira favor.
E qualquer reclamação pode ser respondida com a frase preferida de Aylla:
“Tem médico demais querendo a vaga.”
Aylla não se importaria nem mesmo em ganhar R$ 5 mil por mês depois de seis anos de faculdade. Para ela, ainda estaria ótimo, pois “a maioria da população brasileira ganha muito menos do que isso”.
Pouco importa o investimento de anos na formação, a responsabilidade sobre vidas humanas, os plantões noturnos, os finais de semana, os feriados e a necessidade constante de atualização.
Se R$ 5 mil ainda for mais do que ganha grande parte da população, então, na lógica de Aylla, o médico deveria agradecer.
Se amanhã forem R$ 4 mil, ainda haverá alguém ganhando R$ 2 mil.
Se forem R$ 3 mil, ainda haverá alguém ganhando um salário mínimo.
E assim Aylla descobre uma maneira extraordinariamente simples de definir uma remuneração “justa”: não pelo grau de formação, responsabilidade, carga horária ou condições de trabalho, mas pela existência de alguém que ganhe menos.
Para Aylla, portanto, salário baixo não é precarização enquanto existir alguém mais pobre.
O curioso dessa lógica é que ela não melhora a situação de quem ganha pouco. Apenas transforma o salário baixo dos demais trabalhadores em argumento para aceitar a desvalorização do próprio trabalho.
Aylla entrou na faculdade imaginando que estava ingressando em uma profissão valorizada.
Talvez termine descobrindo que participou alegremente de um projeto político que, na visão dos seus críticos, confundiu democratização do acesso com expansão sem planejamento e solução da assistência médica com simples aumento da oferta de mão de obra.
Mas Aylla continuará tranquila.
Quando receber uma proposta PJ de R$ 7 mil para trabalhar 60 horas semanais, poderá lembrar que pelo menos derrotou a “reserva de mercado”.
Quando disputar um plantão com outros cinquenta currículos, poderá comemorar a democratização.
Quando perceber que seis anos de graduação e vários outros de especialização não garantem poder de negociação, poderá celebrar o fim dos privilégios.
E quando finalmente perguntar como uma profissão que carregava tamanha responsabilidade chegou àquele ponto, talvez alguém responda:
“Mas não diziam que faltavam médicos?”
O futuro prometido chegou.
Só esqueceram de explicar que aumentar indefinidamente o número de médicos não significa valorizar a Medicina e que transformar médico em mão de obra abundante e barata pode ser excelente para quem contrata, sem necessariamente ser excelente para quem atende ou para quem é atendido.