Texto do professor Sidney Silveira
É simples a resposta a isto: porque as pessoas não dominam os conceitos básicos da arte dialética. Daí que amontoem proposições soltas e baralhem os seus enunciados.
A propósito, convém distinguir entre PROPOSIÇÃO e ENUNCIADO. Proposição é o conteúdo lógico de um juízo: aquilo que, em sentido próprio, pode ser verdadeiro ou falso, pois consiste na afirmação ou negação de um predicado acerca de um sujeito. Enunciado é a expressão lingüística concreta que pode conter uma ou mais proposições.
Assim, um mesmo enunciado pode encerrar vários juízos ou proposições, quer explícitas, quer implícitas. Por exemplo, quando alguém formula uma afirmação mais complexa, seja em forma condicional, causal ou argumentativa, o enunciado pode implicar uma cadeia de proposições articuladas.
Por isso, numa discussão dialética, é essencial não se afastar do juízo ou dos juízos efetivamente implicados na proposição em disputa.
Muitas controvérsias degeneram quando um dos interlocutores não responde ao conteúdo proposicional do argumento apresentado e passa a discutir outra coisa, isto é, muda o objeto do juízo em questão.
Manter-se fiel às proposições implicadas no enunciado discutido é condição elementar para que uma discussão possa avançar com clareza e honestidade intelectual. Como ensina Joseph Gredt, de cujo famoso manual aqui me sirvo, o enunciado é uma "oratio significans verum vel falsum", isto é, uma expressão lingüística apta a significar o verdadeiro ou o falso.
Para além da ignorância acerca dessas distinções elementares, os bate-bocas de internet descambam em contendas ofensivas porque as pessoas acumulam questões sem resolver as que ficaram em aberto. Saltam de um ponto a outro, abandonam objeções pendentes e introduzem novas matérias de discussão, antes que as anteriores tenham sido examinadas.
No fundo, já não procuram a verdade, mas a vitória. Querem vencer o "debate" a qualquer custo, ainda que seja ao preço da própria honestidade intelectual e, por vezes, da perdição de sua alma.
Como se pode deduzir do que foi dito acima, deixar questões por resolver e continuar a discussão equivale, em sentido próprio, a não raciocinar. Sim, pois raciocinar é avançar ordenadamente de uma verdade conhecida a outra por conhecer.
Portanto, quem acumula objeções sem resolver as anteriores, muda continuamente de assunto e rompe o encadeamento do discurso racional. Já não busca nenhuma verdade: apenas disputa a palma de ouro da glória nanica.