Uma sequência sobre o amor, o medo e o tempo
I. Pergunta
Você segura um copo d'água
com a mão meio fechada,
e ela escapa pelos vãos dos dedos
antes de chegar à boca.
Não é falha da mão.
É a forma da água.
Talvez o amor seja assim:
não o que fica na palma,
mas o rastro molhado
sobre a pele,
a prova breve
de que alguma coisa
passou por ali.
II. Um segundo
Você disse que gostava de mim
num domingo, na cozinha,
com as mãos ainda sujas de farinha.
Eu demorei.
Não muito — um segundo, talvez dois.
Tempo suficiente para você notar
e fingir que não notou.
Não era dúvida.
Era outra cozinha,
anos atrás,
querendo entrar pela brecha
que a palavra gosto sempre abre.
Fechei a porta a tempo.
Mas o segundo ficou.
Não tenho medo de você.
Tenho medo de uma manhã qualquer,
de um café sobre a mesa,
de olhar para o seu rosto
e descobrir que, sem perceber,
deixei de reconhecê-lo
como casa.
III. Terça-feira
Você tentava abrir um pote de vidro,
girando a tampa com força,
o pulso branco de tanto apertar.
Levantei da cadeira
já sabendo que você conseguiria,
só para ficar de pé ao seu lado
por mais alguns segundos.
O café esfriava na xícara
enquanto discutíamos
se determinado ator
tinha estado naquele filme —
uma coisa que esqueceríamos
até quinta-feira.
A tampa cedeu com um estalo seco.
Você riu, vitoriosa,
sem saber que eu decorara
o jeito como seu sorriso
começava pelo lado esquerdo.
O café frio.
O pote aberto.
Uma ajuda que não fez falta nenhuma.
E nós dois,
sem perceber,
fazendo de uma terça-feira
um lugar ao qual eu voltaria
por muito tempo.
IV. Enquanto durasse
Você me contou do seu medo
olhando para o teto, não para mim —
como quem procura outro lugar
quando a verdade é grande demais
para caber num rosto.
Medo de me amar por inteiro
e um dia acordar
sem encontrar o caminho de volta.
Eu conhecia aquele mapa.
Já tinha me perdido nele.
Por isso não prometi o para sempre.
Prometi uma coisa menor
e mais honesta:
que, enquanto durasse,
eu estaria inteiro —
sem guardar metade de mim
para o caso de acabar.
Conheci gente que amava com economia,
poupando o coração
como quem poupa dinheiro
para uma crise que nunca chegava.
Chegaram ao fim
tão ricos quanto começaram.
V. Inventário
Meia-noite e vinte.
Seu pé frio procura o meu
debaixo do cobertor,
sem perguntar,
como quem sabe
que tem lugar reservado ali.
Você fala dormindo.
Nomes que não reconheço.
Uma vez, o número quarenta e dois,
sozinho, no escuro.
Fico acordado, catalogando:
sua respiração mudando de ritmo,
o cheiro de sabonete
que ficou no travesseiro,
a temperatura exata do seu pé
antes de esquentar no meu.
É disso que os dias são feitos,
não das juras.
De manhã, saio cedo.
Deixo um bilhete na mesa,
a letra torta de quem tem pressa:
fica mais um pouco.
o café ainda está quente
e eu ainda não terminei de te ver.
Quando tudo isso virar lembrança —
e vai virar, cedo ou tarde —
não sei de que vou sentir mais falta.
Talvez do número sem sentido.
Do seu pé frio.
Da letra torta.
Talvez de ter acordado
tantas vezes ao seu lado
sem saber
que um dia sentiria falta
até do que me parecia comum.
VI. Devagar
Ninguém percebe o dia exato
em que um eu te amo
dito às pressas antes de desligar o telefone
vira apenas despedida,
dito por hábito,
sem pausa antes nem depois.
As mensagens continuam chegando.
As palavras são as mesmas.
Mas o que antes chegava
com a tinta ainda molhada
agora chega seco,
pronto, embalado.
É como a água:
ninguém vê o instante
em que ela escapa pelos dedos.
Um dia, abrimos a mão
e encontramos apenas
as linhas da palma.
Não é o fim de tudo.
É o fim
do jeito como as coisas eram.
VII. A chave
Ainda tenho a chave
de um lugar que não existe mais
do jeito que existia.
As paredes continuam de pé.
Só o que morava nelas
foi embora primeiro.
A chave ainda serve.
A porta ainda abre.
Mas há casas
em que entramos
e já não sabemos
onde deixar as mãos.
E, ainda assim, ela cumpriu o que devia —
como a mão que segura o copo:
notadamente não precisa reter a água para sempre
para ter servido
no caminho até a boca.
O que me resta
não é saudade pura.
É gratidão com um vinco de dor,
a marca da dobra
que permanece no papel
depois que o desdobramos.
Amei alguém por um tempo.
E, por muito tempo,
confundi a duração
com o tamanho do amor.
Amar por um tempo
não é uma versão menor de amar.
Talvez seja a única que existe —
disfarçada, às vezes,
de para sempre.
VIII. A folha
Eu carregava minha caneta
como quem escreve sozinho.
Um dia, encontrei a sua
largada sobre a mesma mesa.
Não foi quando você prometeu ficar.
Foi antes:
quando deixou de escrever
apenas para si.
Escrevíamos um verso cada,
nem sempre alternados.
Às vezes, você riscava os meus.
Às vezes, eu riscava os seus.
Nem sempre encontrávamos
uma palavra melhor.
Às vezes, apenas aprendíamos
a ler o que o outro queria dizer.
Se a folha acabasse,
haveria outra.
O difícil nunca foi o papel.
Foi aprender
a escrever na mesma página
sem apagar a mão do outro —
e continuar,
mesmo quando doía.
IX. A caneca
Fecho este caderno.
A tinta já secou nas últimas páginas,
mas ainda seguro a caneca
com as duas mãos,
como você fazia.
Eu não fazia isso antes de você.
Não lembro quando aprendi.
Há coisas que entram na gente
sem pedir licença
e ficam sem fazer barulho.
Talvez seja isso
o que resta:
não a promessa,
nem a data,
mas um gesto emprestado
que já não sabemos devolver.
Alguém viveu aqui.
E, por algum tempo,
o mundo teve
o formato de duas mãos
em volta de uma caneca.
Epílogo — Antes da próxima página
Não me lembro exatamente
de quando comecei a mudar.
Talvez entre duas conversas,
numa rua que aprendi a chamar de minha,
ou numa manhã qualquer
em que fiz as coisas de sempre
e nenhuma delas pareceu igual.
Nada precisou desaparecer de uma vez.
Algumas coisas foram ficando longe.
Outras chegaram sem pedir licença.
Passei muito tempo
procurando o que ficou:
uma chave,
um hábito,
uma palavra que ainda não sei dizer
sem voltar a outra época.
Como se cada coisa perdida
precisasse ser a última
ainda capaz de me transformar.
O amor esteve ali.
O que doeu também.
E nada precisa ter durado para sempre
para ter sido verdadeiro.
Mas há ruas que não conheço.
Há pessoas que ainda não sabem
que um dia vão morar
em alguma lembrança minha.
Passei tanto tempo tentando entender
o que fazer com o que ficou
que quase esqueci
tudo o que ainda não chegou.
Talvez eu não reconheça
o próximo lugar em que me sentirei em casa.
Por enquanto,
abro a janela
sem esperar o mesmo vento.
Sobre a mesa,
uma folha em branco.
Não sei o que escrever.
Desta vez,
não preciso saber.
A folha continua ali.
E eu também.