Se tem uma Idea bastante comum de que ser forte significa não demonstrar sentimentos, não depender de ninguém e aprender a suportar qualquer sofrimento em silêncio. Desde cedo, muitos meninos são ensinados a engolir o choro, esconder o medo e tratar a vulnerabilidade como uma fraqueza que precisa ser corrigida. Quando sentem tristeza, escutam que precisam ser fortes, quando demonstram medo, são incentivados a enfrentá-lo sem reclamar; quando precisam de carinho, podem acabar aprendendo que pedir afeto é uma forma de dependência. Aos poucos, aquilo que deveria ser apenas uma parte natural da experiência humana passa a ser tratado como algo vergonhoso
O problema é que ninguém deixa de sentir porque aprendeu a esconder o que sente. A tristeza não desaparece porque alguém se recusa a chorar, assim como o medo não deixa de existir porque uma pessoa construiu uma imagem de coragem. O que acontece, muitas vezes, é que ela aprende a disfarçar essas emoções até perder a capacidade de reconhecê-las com clareza. Em vez de compreender o que está acontecendo dentro de si, começa a responder a tudo com irritação, afastamento, indiferença ou silêncio. Aquilo que os outros enxergam como frieza pode ser, em determinadas situações, uma maneira de lidar com sentimentos que a pessoa nunca aprendeu a expressar de outra forma
Geralt de Rívia representa esse conflito de maneira interessante. Sua imagem é a de um homem duro, violento quando necessário, pouco disposto a demonstrar afeto e aparentemente indiferente ao mundo ao redor. Para quem observa apenas suas atitudes, seria fácil concluir que ele simplesmente não se importa com ninguém. Entretanto, quando olhamos para sua história, encontramos alguém que aprendeu muito cedo que as pessoas capazes de oferecer amor também podem ser responsáveis por suas maiores feridas. O abandono não afeta apenas a relação que ele estabelece com a mãe, mas também a maneira como passa a enxergar a si mesmo e a possibilidade de confiar em qualquer outra pessoa
Quando uma criança é rejeitada por alguém de quem esperava amor e proteção, ela nem sempre consegue compreender que aquela atitude pertence ao adulto e às circunstâncias que a cercam. Em vez disso, pode começar a acreditar que existe alguma coisa errada consigo mesma. Se alguém que deveria amá-la foi embora, será que ela não era digna de amor? Se foi abandonada, será que não merecia ter sido escolhida? A criança não possui necessariamente os recursos emocionais para separar a decisão de quem a abandonou do próprio valor. Por isso, uma experiência de rejeição pode se transformar em uma crença muito mais profunda: a de que, no fundo, ela não é suficientemente boa para ser amada
Essa crença pode acompanhar uma pessoa durante muito tempo, mesmo quando sua vida muda e ela já não está naquela situação de dependência. O indivíduo cresce, aprende novas habilidades, conquista autonomia e passa a ser visto como alguém forte, mas continua carregando uma interpretação antiga de si mesmo. Pode acreditar que precisa provar constantemente seu valor, que não deve demonstrar necessidade de afeto ou que qualquer aproximação emocional representa uma oportunidade para ser ferido novamente. A infância termina, mas algumas formas de compreender o mundo permanecem presentes nas relações que construímos na vida adulta
É nesse ponto que a proteção emocional começa a apresentar suas contradições. Depois de sofrer uma decepção, afastar-se de outras pessoas pode parecer uma decisão sensata. Afinal, se não houver proximidade, haverá menos oportunidades para que alguém conheça nossas fragilidades e as utilize contra nós. Se não criarmos expectativas, não precisaremos lidar com a possibilidade de vê-las frustradas. Se não demonstrarmos o que sentimos, ninguém poderá usar nossos sentimentos para nos machucar. A lógica parece funcionar, mas existe um problema: a mesma distância que reduz determinadas possibilidades de sofrimento também dificulta a construção de experiências capazes de nos mostrar que nem todas as relações precisam terminar da mesma maneira
Uma pessoa que teme ser abandonada pode começar a abandonar os outros emocionalmente antes que eles tenham a oportunidade de se aproximar. Pode evitar conversas importantes, desconfiar de demonstrações de carinho, interpretar qualquer afastamento como sinal de rejeição ou terminar uma relação justamente quando percebe que está começando a se importar. Em alguns casos, prefere manter vínculos superficiais porque consegue controlar melhor a distância. Assim, se a relação terminar, acredita que não terá perdido muito. O que ela nem sempre percebe é que está tentando impedir uma dor futura por meio de atitudes que também dificultam a possibilidade de construir aquilo que deseja no presente
Isso não significa que toda pessoa reservada tenha medo de amar, nem que a dificuldade de demonstrar sentimentos seja necessariamente consequência de um trauma. Existem diferentes temperamentos, experiências e maneiras de estabelecer vínculos. Também é importante reconhecer que algumas pessoas realmente precisam manter distância de quem as trata mal. A questão não é transformar toda barreira emocional em um defeito, mas compreender quando a proteção deixa de responder a um perigo concreto e passa a funcionar como uma regra aplicada a todas as relações, inclusive àquelas que poderiam ser seguras
Tem diferença entre escolher cuidadosamente em quem confiar e acreditar que ninguém merece confiança. A primeira atitude reconhece que relações humanas envolvem riscos e que precisamos observar comportamentos, estabelecer limites e respeitar nosso próprio tempo. A segunda transforma uma experiência dolorosa em uma sentença sobre todas as pessoas. Quem foi traído pode concluir que precisa conhecer melhor alguém antes de confiar; mas também pode chegar à conclusão de que confiar é sempre um erro. A experiência inicial pode ser semelhante, mas as consequências dessas interpretações são muito diferentes
A forma como a masculinidade é ensinada pode aprofundar esse conflito. Em muitos ambientes, os meninos recebem mensagens contraditórias e espera-se que sejam fortes, mas raramente lhes ensinam como lidar de maneira saudável com a própria dor, espera-se que protejam os outros, mas nem sempre lhes permitem admitir que também precisam de proteção; espera-se que assumam responsabilidades, mas podem ser ridicularizados quando demonstram insegurança. Nesse contexto, a agressividade pode acabar sendo uma das poucas emoções que eles se sentem autorizados a expressar sem colocar em risco a imagem de masculinidade que aprenderam a construir
É importante não confundir isso com uma característica natural de todos os homens. Não existe uma única maneira de ser homem, assim como não existe uma única maneira de lidar com as emoções. O que existe são modelos culturais que podem recompensar determinadas atitudes e punir outras. Quando um menino aprende que chorar é motivo de vergonha, mas demonstrar raiva é sinal de força, ele pode começar a substituir uma emoção por outra. Não porque deixou de sentir tristeza ou medo, mas porque encontrou uma forma de expressá-los que parece mais aceitável diante das pessoas ao seu redor
Essa aprendizagem também pode prejudicar os relacionamentos. Alguém que não consegue reconhecer a própria vulnerabilidade pode ter dificuldade para explicar o que o incomoda, admitir que precisa de ajuda ou conversar sobre o medo de perder uma pessoa importante. Em vez de dizer que está inseguro, pode se tornar controlador, em vez de admitir que se sentiu magoado, pode responder com agressividade; em vez de pedir proximidade, pode se afastar para testar se alguém irá procurá-lo. São formas de tentar proteger sentimentos que, por não serem expressos diretamente, acabam aparecendo em comportamentos que confundem e machucam os outros
Compreender a origem de uma atitude, porém, não significa justificar todas as suas consequências. Uma pessoa pode ter sido profundamente ferida e ainda assim ser responsável pela maneira como trata os outros. A dor explica parte de uma história, mas não transforma qualquer comportamento em algo aceitável. Não seria justo exigir que alguém que sofreu abandono simplesmente esquecesse o passado, mas também não seria justo permitir que esse passado se tornasse uma justificativa permanente para controlar, humilhar ou ferir quem tenta se aproximar. É possível reconhecer o sofrimento de alguém sem ignorar o sofrimento que essa pessoa causa
Uma das partes mais difíceis de amadurecer emocionalmente seja compreender que não podemos voltar ao passado para impedir tudo o que aconteceu, mas podemos aprender a não transformar cada experiência antiga em uma previsão inevitável do futuro. Isso exige tempo, autoconhecimento e, em muitos casos, apoio de outras pessoas ou de um profissional. Não basta decidir que nunca mais seremos vulneráveis, porque essa decisão não elimina a necessidade humana de conexão. O caminho está em aprender a reconhecer nossos sentimentos, comunicar limites, observar quem demonstra respeito por nós e aceitar que confiar não significa entregar a outra pessoa o controle sobre nosso valor
Também precisamos entender que amar alguém não é o mesmo que garantir que essa pessoa nunca irá embora. Nenhum relacionamento oferece controle absoluto sobre as escolhas do outro. Podemos construir vínculos sinceros, agir com cuidado e fazer o possível para que uma relação seja saudável, mas não podemos eliminar todas as incertezas. A tentativa de conseguir essa garantia pode nos levar a controlar demais, exigir provas constantes de afeto ou evitar qualquer compromisso que envolva algum risco. A segurança emocional não nasce da certeza de que nunca sofreremos; ela também depende da confiança de que, mesmo diante de uma decepção, não precisamos concluir que deixamos de ter valor
É por isso que o vínculo entre Geralt e Ciri pode ser entendido como algo maior do que a responsabilidade de proteger uma criança dos perigos do mundo. A relação representa a possibilidade de alguém que aprendeu a sobreviver sozinho descobrir que também pode oferecer cuidado, presença e afeto. Proteger alguém fisicamente exige habilidades e coragem, mas estar emocionalmente presente envolve outras dificuldades para escutar, reconhecer as necessidades do outro, aceitar a própria imperfeição e permanecer disponível mesmo quando não sabemos exatamente o que fazer. Não se trata apenas de impedir que outra pessoa seja ferida, mas de ajudá-la a compreender que não precisa enfrentar tudo sozinha
Ao assumir esse compromisso, Geralt também se confronta com a própria história. A criança que um dia precisou aprender a sobreviver continua fazendo parte do homem que ele se tornou. A dureza pode ter sido útil para atravessar determinadas experiências, mas não precisa definir todas as suas escolhas para sempre. Reconhecer isso não apaga o passado nem torna simples a tarefa de mudar. Apenas abre a possibilidade de que a identidade de alguém seja maior do que as estratégias que desenvolveu para suportar a dor
E seja justamente aí que esteja uma das maiores dificuldades humanas distinguir quem somos daquilo que aprendemos a fazer para não sofrer. Às vezes, repetimos que somos frios quando, na verdade, temos dificuldade para demonstrar carinho, dizemos que não precisamos de ninguém quando temos medo de depender de alguém, afirmamos que não nos importamos quando a possibilidade de sermos rejeitados nos assusta mais do que gostaríamos de admitir. Com o tempo, essas respostas podem se tornar tão familiares que deixamos de percebê-las como formas de proteção e passamos a tratá-las como nossa personalidade definitiva
Mas ninguém precisa permanecer preso para sempre à versão de si mesmo que nasceu em um período de sofrimento. Mudar não significa negar o que aconteceu, fingir que determinadas feridas não existiram ou voltar a confiar indiscriminadamente. Significa reconhecer que aquilo que nos ajudou a sobreviver em uma fase da vida pode não ser suficiente para nos ajudar a construir a vida que desejamos agora. A força não precisa desaparecer, ela pode deixar de ser uma muralha e se tornar a capacidade de enfrentar conversas difíceis, admitir erros, pedir ajuda e demonstrar afeto sem sentir que isso diminui nosso valor
O Geralt não precise deixar de ser forte para aprender a amar. Precise apenas descobrir que a força que o manteve de pé durante tanto tempo não precisa continuar afastando tudo aquilo que poderia lhe dar motivos para permanecer. Afinal, é possível atravessar a vida inteira tentando evitar que alguém nos machuque e, mesmo assim, acabar ferindo a nós mesmos ao abrir mão de toda possibilidade de proximidade