No meu projeto de tradução bíblica THCE-VC (Tradução Histórica e Científica das Escrituras – Versão Acadêmica), busco traduzir analiticamente os artigos gregos e os substantivos anártricos. Por exemplo:
João 1:51: καὶ λέγει αὐτῷ· ἀμὴν ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ὄψεσθε τὸν οὐρανὸν ἀνεῳγότα καὶ τοὺς ἀγγέλους τοῦ θεοῦ ἀναβαίνοντας καὶ καταβαίνοντας ἐπὶ τὸν υἱὸν τοῦ ἀνθρώπου.
Tradução (THCE): E falou a ele: verdade, verdade digo a vocês, vereis o Céu aberto e os Mensageiros de o Deus subindo e descendo para o Filho de o Homem.
Isso pode resultar em um português truncado, mas para um projeto acadêmico de filologia bíblica, preservar repetições, morfologia e artigos ajuda a manter a identidade única dos livros do novo cânone, como pausas poéticas e dramáticas.
Claro, a análise dos substantivos anártricos não depende exclusivamente da ausência de artigos, mas também da sintaxe e da morfologia envolvidas no texto grego original. Como registram os gramáticos da Antiguidade:
Dionísio, o Trácio (A Natureza do Substantivo):
"Ὄνομά ἐστι μέρος λόγου πτωτικόν, σῶμα ἢ πρᾶγμα σημαῖνον... κοινῶς τε καὶ ἰδίως λεγόμενον."
Tradução: "Nome [substantivo] é a parte declinável do discurso, significando um corpo ou uma coisa... dito de modo comum [genérico/qualitativo] e de modo próprio [específico/identificado]."
Apolônio Díscolo (A Função do Artigo):
"τὸ γὰρ ἄπειρον τοῦ ὀνόματος διὰ τοῦ ἄρθρου ὁρίζεται."
Tradução: "Pois a propriedade peculiar dos artigos é a anáfora [referência para trás/identificação], a qual é representativa de uma pessoa [ou entidade] previamente exposta."
Muitos dizem que a leitura qualitativa da anartria dos substantivos é apenas uma interpretação tradutória e não uma exigência gramatical. Contudo, entendo que a anartria não é mera conjectura: ela é derivada gramaticalmente da estrutura das Escrituras, considerando a morfologia, posição, sintaxe e a articulação de artigos na frase.
Portanto, não se deve desprezar a anartria pela sua importância no desenvolvimento dos sentidos e do contexto textual, como ocorre em João 1:1 com a palavra θεὸς:
João 1:1: Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.
Tradução (THCE): No princípio existia o Logos, e o Logos estava para com o Deus, e deidade era o Logos.
Isso não diminui a imagem do Logos (Jesus), mas a amplia: o texto se revela magnificamente filosófico no contexto helenístico do século I, apontando para a sua essencialidade, enquanto outros textos (como João 20:28) empregam a articulação explícita. O texto se torna muito mais rico e amplo quando analisado em seu contexto histórico!
Mas não é só isso, pela dificuldade da língua portuguesa em preservar os substantivos anártricos (Pois a sistematização anártrica é ausente no português), muitos estudiosos optam por traduzir, em João 1:1, θεὸς como divino, mesmo respectivamente um sendo substantivo e outro sendo adjetivo (tentando preservar uma possível força qualitativa ou essencial), o que diminui o rigor gramatical. Portanto, a THCE opta pela tradução de “deidade”, substantivo que pode expressar Deus em essência, como uma proposta de estabelecer uma resolução deste problema gramatical envolvido na tradução de “divino“ em João 1:1.
Escrevo isto não só para criticar, mas também para receber criticas e melhorar. E muito obrigado pela leitura! Suas críticas vão me ajudar muito!
Link do PDF da tradução: https://drive.google.com/file/d/1yKzK9noxeA-D-YXglg0G4wQ4P-af_P7f/view?usp=sharing